Símbolo maior do sonho do polo têxtil foi a fábrica de tecidos da Santana Textiles, que chegou a ser a maior empregadora da iniciativa privada local, mas hoje entrou no esquecimento – Foto: A TRIBUNA

Em mais uma campanha política pela disputa ao Governo de Mato Grosso, é o momento de se discutir novamente as políticas públicas de incentivo à cadeia têxtil no Estado, incluindo a consolidação do polo têxtil em Rondonópolis, que, devido a falta de apoio, acabou regredindo nos últimos anos, estando hoje sem perspectiva de avanço. Por isso, a Série Obras Paradas do Jornal A TRIBUNA, que mostra a situação de obras públicas abandonadas ou prometidas e nem iniciadas na cidade, traz um enfoque diferente nesta semana. Em vez de enfocar uma obra parada, destaca dessa vez o esquecimento pelas nossas autoridades públicas da proposta de criação e consolidação de um grande polo têxtil em Rondonópolis.

O esfriamento da ideia de consolidação desse polo têxtil em Rondonópolis, especialmente do APL (Arranjo Produtivo Local) de Confecção, também está sendo lembrado na nova edição da Revista Mercado Imobiliário e Construção, publicada pelo A TRIBUNA neste mês de agosto, esperando que um dia esse segmento volte a dinamizar a economia local, assim como a construção civil tem feito atualmente. Agora, com a abordagem do assunto na Série Obras Paradas, estaremos acompanhando e cobrando possíveis ações para reativação e fortalecimento do setor têxtil ou de confecções em Rondonópolis, para quem sabe o município possa vir a se tornar algum dia uma nova “Goiânia” no Brasil.

Empresários do segmento de confecções da cidade, especialmente, cobram novas políticas públicas para o desenvolvimento do setor. Eles analisam que o polo têxtil não se consolidou na cidade principalmente por questão política. Ao longo dos anos, com a mudança de gestores, não houve continuidade nas políticas voltadas ao segmento, gerando o seu enfraquecimento. Até hoje, por exemplo, o sonho de construção de shopping atacadista continua sendo uma luta, sem nenhuma novidade por parte do poder público. Agora mais um problema a ser enfrentado é a perda de competitividade da indústria têxtil brasileira, especialmente em razão da competição da indústria têxtil chinesa, baseada em fibras sintéticas de menor valor. Para piorar, as administrações estadual e municipal nunca mais debateram a questão.

Sobre a questão, o professor doutor Luís Otávio Bau Macedo, do curso de Economia da UFMT, informa que o Grupo de Estudos Avançados em Economia Aplicada (GEASMT) produziu um estudo denominado “Relatório de Competitividade do APL de Confecções do Município de Rondonópolis”, que versa sobre a atividade têxtil no município. Apesar da estagnação do setor, segundo o estudo, Rondonópolis tem ainda um grande potencial para se firmar como um polo têxtil. Um dos problemas é que houve uma perda de foco em torno do objetivo de consolidar o polo têxtil. Com base na realidade, verifica-se a necessidade de uma estratégia de coordenação dessa cadeia produtiva que possibilite a geração de ganhos de competitividade que beneficiem a todos os seus estágios de produção.

O professor Luís Otávio analisa que é possível perceber que as empresas passam por um processo de reestruturação e não estão organizadas de forma a se beneficiarem com a competitividade e a proximidade territorial entre elas, nem mesmo com a proximidade da produção algodoeira. “A atração de investidores, ou a articulação de empresários locais, tais como os grandes produtores de algodão, poderia ser incentivada para fomentar a constituição de um polo têxtil competitivo. Da mesma forma, as confecções poderiam ser estimuladas a adotar medidas de cooperação, por exemplo, mediante a compra conjunta de tecidos, com maior escala, e o treinamento de mão de obra. Em síntese, Rondonópolis possui todos os atributos para se tornar um grande polo têxtil, porém, isso requer a constituição de uma rede de cooperação entre os agentes da cadeia produtiva que ainda é inexistente”, avalia o professor.

Nessa realidade, o que seria o símbolo maior desse polo têxtil – a fábrica da Santana Textiles – também encerrou em meados de 2015 sua produção em Rondonópolis. A empresa produzia fios e tecido jeans, sendo uma grande aposta para alavancar o ramo de confecções na cidade. Um dos grandes atrativos era o fato da cidade estar numa região altamente produtora de algodão, com pluma da mais alta qualidade mundial. Passada a euforia do passado, a enorme estrutura da empresa em Rondonópolis não tem um destino oficializado.

No começo, o Governo do Estado anunciou que foram investidos R$ 250 milhões na primeira fase da fábrica na cidade e, na sequência, aplicados mais R$ 176 milhões. A projeção anunciada foi que o empreendimento chegou a gerar em certas épocas até mais de 1.000 empregos diretos. Segundo divulgado pelo governo, a indústria em Rondonópolis avançou para 60 mil metros quadrados de área construída, uma das maiores no município. Hoje a grande dúvida é se a empresa vai retomar as atividades ou se vai vender a estrutura para outro grupo.

O Jornal A TRIBUNA procurou falar agora com representantes da empresa, mas ninguém na unidade em Rondonópolis está autorizado a conceder entrevista para a imprensa. Somente foi repassado que a empresa segue com a intenção de reativar a produção, mas não tem nada certo de quando e se isso será possível. Vale enfatizar que a empresa se valeu de financiamento e de vários benefícios públicos, como doação de área e incentivos fiscais, para sua concretização.

A pergunta que muitos fazem agora é como pode um empreendimento que recebeu tantos incentivos públicos não ter gerado a contrapartida esperada para a sociedade, seja em empregos, geração de renda e contratação de outros serviços? Assim, a soma de esforços para que o empreendimento ocorresse, envolvendo muitos recursos públicos, além da existência de muitas confecções locais, denota a necessidade de se voltar a discutir meios para que as atividades da unidade possam ser retomadas, bem como para o fortalecimento do polo têxtil na cidade, especialmente nesta época de campanha eleitoral no Estado.

Fonte: A Tribuna.