A robotização será uma das várias tendências que irão moldar a indústria de equipamentos de proteção individual, segundo a 8.ª Conferência Europeia de Vestuário de Proteção.

Na cidade do Porto, foram muitos os especialistas europeus, e não só, que se reuniram de 7 a 9 de maio na 8.ª Conferência Europeia de Vestuário de Proteção (ECPC na sigla em inglês) para discutir e apresentar novas investigações e desenvolvimentos no campo dos equipamentos de vestuário de proteção.

O mercado dos equipamentos de proteção individual (EPIs) deverá atingir 55,6 mil milhões de dólares em 2028, segundo um estudo da Hexa Research, com 23% do mercado a corresponder ao segmento do vestuário de proteção. Em termos regionais, a Europa representa uma quota superior a 32%.

Jan Laperre

Mas as mudanças tecnológicas vão alterar o mercado, como revelou Jan Laperre. «A tecnologia muda o mundo e os robots não usam EPI’s. E isso é um elemento de desconforto», afirmou, destacando um estudo de Frey & Osborne de 2013 que conclui que 47% de todos os empregos nos EUA estão em risco devido à robotização e automatização. «Este número está um bocadinho inflacionado, deverá ser metade, mas ainda assim são 23,5%», ressalvou.

O diretor-geral do Centexbel assegurou, contudo, que a indústria não deve ter medo desta mudança, relembrando as inúmeras revoluções tecnológicas dos últimos 200 anos, desde o motor a vapor à eletricidade, transístores e computadores. «Agora estamos a entrar numa nova era com a digitalização, que, de facto, traz o mundo digital para o mundo real através de sensores. Isso cria grandes quantidades de dados», explicou.

Dando conta dos avanços a que se tem assistido na área das tecnologias blockchain, da indústria 4.0 e das fábricas inteligentes, Laperre apontou alguns elementos importantes tanto no processo – com planeamento avançado, utilização mais inteligente dos recursos e manutenção preditiva – como nos produtos. «Olhem para diferentes aspetos: produtos que possam ter upgrades, intervenção inteligente, produtos que comunicam com o ambiente», acrescentou.

Além disso, a inteligência artificial irá, igualmente, marcar pontos. «Se as máquinas se tornarem inteligentes, qualquer dia estarão também no Facebook. Não irão partilhar fotos das férias e da família, mas talvez possam partilhar o seu estado de saúde no Facebook… Pode parecer inimaginável, mas basta ver o site da Mobility Work, que é um site que tem a ambição de ligar as máquinas aos trabalhadores da manutenção», exemplificou Jan Laperre.

Ao longo dos três dias desta 8.ª conferência, dezenas de comunicações subiram ao palco para dar uma visão do estado do sector em termos de investigação. Foram ainda apresentados diversos posters, com a atribuição no final de três prémios. Paulina Kropidlowska ocupou o primeiro lugar do pódio com um trabalho de avaliação de destreza manual de luvas de proteção com elementos de aquecimento para ambientes frios. Hamilton Ramos, com um poster sobre a variabilidade de resultados de testes usando a ISO 17491-4 com diferentes pulverizadores, e Sonja Stermann, com o desenvolvimento de protótipos de vestuário de proteção com uma e duas peças para utilizadores de pesticidas, ficaram, respetivamente, na segunda e na terceira posições.


«Esta é uma conferência para técnicos, para gente que está a discutir materiais na sua essência, que está a discutir métodos. Há muita gente que faz investigação fundamental que está nesta conferência, como há gente que anda no domínio do desenvolvimento tecnológico e há empresas que, estando relacionadas com equipamentos de proteção individual, são logo à partida empresas que lidam com um nível de tecnicidade relativamente elevado», resumiu, para o Jornal Têxtil, Braz Costa, diretor-geral do Citeve, que organizou esta 8.ª ECPC. «Tem também a característica de envolver importantes clientes, ter aqui representantes dos bombeiros ao nível europeu, ter aqui representantes dos utilizadores dos equipamentos de proteção individual, poder cruzar aquilo que a ciência de materiais está a produzir com aquilo que a investigação na área dos fogos está a resultar e, portanto, são ideias que vão de um lado para o outro, que cruzam. Os utilizadores ganham, os produtores ganham, quem está a fazer investigação fundamental em áreas que são acessórias destas aplicações ganham – todos ganham», adiantou.

Braz Costa

Com uma periodicidade bienal, estando a próxima, sob chancela do Hohenstein Institute, agendada para maio de 2020, a escolha do Porto este ano parece ter convencido os conferencistas internacionais. «O nível técnico, o nível científico das comunicações foi muito elevado – estamos a falar do que há de melhor e, finalmente, uma coisa que nos deixa satisfeitos é que os conferencistas gostaram de vir ao Porto. Era isso que queríamos: que a organização corresse bem, que o nível fosse elevado, que daqui saíssem ideias importantes para esta comunidade que trabalha os equipamentos de proteção individual e que, finalmente, as pessoas ficassem satisfeitas com a maneira como decidimos acolhê-los», sublinhou Braz Costa.

A conferência serviu ainda para que a investigação realizada em Portugal ganhasse visibilidade, com várias instituições – como o Citeve, o CeNTI e o Inesc-Tec – e empresas, de que foram exemplos a Latino, a Lavoro e a Polyanswer, a desvendarem os seus projetos de I&D.

Fonte: Portugal Têxtil.