Fernando Pimentel: câmbio “vai comer o potencial de recuperação da produção” O câmbio menos favorável no Brasil está causando novo aumento no déficit da balança comercial do setor têxtil e vai anular o potencial de recuperação da produção no horizonte de 24 meses, se não houver compensações. É o que diz Fernando Pimentel, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), que participou na Organização Mundial do Comércio (OMC) de debates do Fórum Público anual reunindo setor privado, governos, acadêmicos e organizações não governamentais. Em entrevista ao Valor, Pimentel declarou que o setor têxtil cresce 5% este ano na comparação com 2016, o varejo voltou a se expandir em torno de 7% e as exportações estão estáveis, mas as importações causam dor de cabeça. Segundo o executivo, por conta do câmbio apreciado as importações aumentam num ritmo entre 30% e 40% este ano. Com isso, o déficit da balança comercial do setor, que tinha sido reduzido para US$ 3,2 bilhões no ano passado, deve aumentar para US$ 3,8 bilhões em 2017. Estatísticas da OMC mostram que o Brasil aumentou as importações totais em 2,6% no primeiro semestre, comparado à contração de 11,6% no mesmo período do ano passado, enquanto as exportações do país subiram 1,7% ante 3,3% de alta em 2016. Entre julho de 2014 e janeiro de 2016, o real se desvalorizou 34% em relação ao dólar, o que ajudou os exportadores brasileiros no mercado internacional. No entanto, desde o começo de 2016 a moeda brasileira teve recuperação de 28% em relação ao dólar. Para Pimentel, o volume de importações de confecções é o que mais preocupa neste momento, porque prejudica todo o restante da cadeia de produção. “Isso é fruto do câmbio, é uma preocupação profunda para o setor, porque vai comer o potencial de recuperação da produção”, afirmou, sem indicar que tipo de compensação gostaria de ter. O presidente da Abit considera que o dólar valendo entre R$ 3,50 e R$ 3,60 seria mais favorável para a indústria. Atualmente, US$ 1 vale cerca de R$ 3,20. “O câmbio é a variável de curto prazo que mais provoca ajuste ou desajuste nessa questão internacional, e o Brasil é pródigo em sair de uma situação de câmbio competitivo para as exportações e entrar num câmbio favorável para as importações”. Pimentel observou que “não se pode ter câmbio contra, juro contra, infraestrutura contra, porque é muita coisa contra para competir no mercado internacional”. Exemplificou que a taxa básica de juros está baixando, mas o Brasil ainda tem a terceira maior taxa real do mundo, “e o crédito para os pobres mortais é absolutamente inviável para um negócio legal”. Em debate no Fórum Público da OMC sobre comércio e cláusulas trabalhistas envolvendo acordos comerciais, Pimentel declarou que o setor têxtil brasileiro é favorável, desde que introduzidas em acordo multilaterais e não em negociações regionais ou bilaterais. Sobre a conclusão do acordo Mercosul-União Europeia (UE), o executivo declarou que o setor é favorável, mas que as condições de competitividade mudaram bastante e que a regra de ouro é a garantia da regra de origem. Ou seja, um produto terá o benefício de tarifa menor para entrar no mercado do parceiro se for fabricado com fios na sua região, e não importados, por exemplo da China. A Abit discute a questão com a Euratex, representante do setor têxtil europeu, que quer flexibilidade para alguns itens. Para Pimentel, desde que determinado fio não exista no bloco, deve ser aplicada uma cláusula de exceção. “Das 10 mil linhas tarifárias, mil são no setor têxtil. E queremos evitar o benefício (de tarifa de importação menor) a outros países que não fazem parte do acordo”, afirmou. “O acordo é feito para aumentar investimentos e negócios entre os países dos dois blocos”. Está claro que as negociações de detalhes na negociação UE-Mercosul ainda vão tomar muito tempo, bem além do anúncio de pré-acordo político em dezembro.

Fonte: GS Notícias.