AGÊNCIA FOTOSITE

O desfile da À La Garçonne aconteceu no palco do Theatro Municipal de São Paulo, em que tanto os modelos quanto o público ficavam em cima dele, com as cadeiras da platéia vazia como fundo para as fotos. O desfile abre com o duo camiseta branca /calça jeans e fecha com um look de festa, o que é bem simbólico para Alexandre Herchcovitch e Fábio Souza. “Mostra que fazemos roupas para todos e que não tem regra de quando deve-se usar o que”, diz Herchcovitch.

Nesta temporada, que eles chamam de Coleção 02-2017, a marca continuou evoluindo nos elementos que tornaram-se sua marca registrada: o mix streetwear com alfaiataria. Daí saem as ótimas parkas e jaquetas com desenhos pintados à mão, moletons, jeans, uma boa série de calças, jaquetas e vestidos e t-shirts (boa a que abre o desfile, simples e branca apenas com À La Garçonne em caixa alta). A corda, que é um elemento símbolo, está nas roupas, bolsas, bonés e mochilas. Os florais pequeninos sempre ganham novas interpretações e rendem vestidos fluídos e volumosos, do micro bem teen a um modelo mais “adulto”, com um decote em renda preta – a renda que Herchcovitch domina tão bem e já apareceu em tantas de suas coleções passadas.

Essa repetição é uma estratégia eficaz. Seleciona as peças que são muito relevantes ao DNA da marca e repete a cada estação de forma que eles se apropriam daquilo. Se eu vejo um desenho à mão nas costas de uma parka na rua, na hora penso em ALG porque é um elemento que está lá desde o início. Essa “marcação” tem sido feita com sucesso por grifes como Gucci e Vetements, por exemplo, e é mais do que válida. Nesse mundo caótico em que não sabemos mais de onde nada vem nem para onde tudo vai, uma informação que se prolonga por um pouco mais de tempo gera um conforto. E a marca, por sua vez, vai demarcando sua estética.

AGÊNCIA FOTOSITE

Vale apontar o styling (que durou 10 dias pra montar!) de Mauricio Ianês, com uma edição eficiente que não complica a roupa, mas traz um novo olhar sobre. Um vestido longo floral com top de renda muda completamente quando aparece dois looks mais tarde com um moletom por cima (em versão saia, mas com a parte debaixo muito semelhante). Outro ponto são as etiquetas que ficaram à mostra, tipo quando você compra uma roupa e esquece de cortar. Aqui, ela aparece de forma proposital, só porque fizeram a prova de roupa assim e resolveram deixar por conta do efeito. “E tem a ver com nosso modelo de negócios colaborativo”.

A À La Garçonne de fato está construindo uma história sólida com marca parceiras que entram para somar com sua expertise.São 10 marcas nesta temporada, incluindo a americana de workwear Dickies, que vai vender as peças também fora do Brasil. Entre os principais exemplos, tem uma colaboração bem sucedida com a Hering na parte de malharia (as peças são também vendidas no e-commerce da marca logo após o desfile) e uma parceria com a Vans, uma das principais marcas de skate do mundo. Agora, uma coisa bem graciosa que chama a atenção desde a última temporada, é a linha de meias feitas junto com a Puket, com meias com estampas animais, logo da marca e frases como addicted to love. Esse é o tipo de produto que convida o consumidor que não pode pagar R$ 400 num moletom tampouco R$ 4 mil numa parka, por mais especial que ela seja. É o chamado buy into the dream, a estratégia de causar desejo e possibilidade de compra em consumidores que querem a marca, mas não podem comprar. São essas pequenas delícias que mantém os grandes negócios das marcas de luxo (perfumes, batons, carteiras, etc). Fora que o mercado das meias parece insignificante, #sqn. Segundo o site Globe News Wire, este mercado registrou uma maior taxa de crescimento em comparação com o mercado geral do vestuário nos últimos anos. A expectativa é que a indústria global de meias tenha um crescimento exponencial devido ao aumento da demanda por meias mais bacanas, como as da ALG.

AGÊNCIA FOTOSITE

A diversidade no casting e nos tipos de beleza (e cores de cabelo) ajudam a tecer a imagem da marca de um jovem global e urbano. Assim como a trilha de Max Blum, em que o funk apareceu em um monte de bases instrumentais picotadas de diversos funkeiros, como Guime, Bin Laden, Kevinho. A história do funk foi uma ideia do Fábio e pelo jeito vai além do desfile. Quem estava lá filmando era a equipe do KondZilla, cara top da cena funk e que já trabalhou com os músicos do funk da velha guarda aos novos. Ele teve carta branca para captar imagens por dois dias e deve fazer um clipe ou um curta que será usado também como parte da campanha da À La Garçonne. Só o seu canal no YouTube tem mais de 17 milhões de seguidores. Taí mais uma parceria esperta que pode beneficiar os dois lados. E assim, do seu jeito, a marca vai crescendo e trazendo para perto as pessoas e as forças que importam.

KONDZILLA / REPRODUÇÃO

Fonte: FFW.