REI KAWAKUBO FOTOGRAFADA POR ANNIE LEIBOVITZ PARA A VOGUE ©REPRODUÇÃO

“Todos os tipos de formas de expressão estão se espalhando por todo o lugar, a informação está transbordando, e é cada vez mais difícil ficar entusiasmado com qualquer coisa. A fim de ser estimulado ou sensibilizado no futuro, provavelmente teremos que ir ao espaço e olhar para o nosso mundo de lá”.

Essa frase de Rei Kawakubo diz muito sobre a estilista mais cultuada da moda contemporânea. Ela é inflexível em sua criação artística, não se curva, não volta atrás e não se impõe limites. É tão livre que entende que a única saída será ir para o espaço e ser impactado pela visão do nosso planeta de um ângulo absolutamente novo e deslumbrante.

Kawakubo é a criadora que, há décadas, vem definindo a vanguarda na moda, criando coleções que desafiam outros estilistas a pensarem fora da caixa quando o assunto é estilo, moda e beleza. Desde os anos 80, tem fãs fieis que deram à Comme des Garçons o status de cult que a marca preserva até hoje. Muitos estilistas, arquitetos, artistas e editores importantes cultuam o trabalho de Kawakubo: Riccardo Tisci, Raf Simons, Marc Jacobs, Karl Lagerfeld, Anna Wintour, Suzy Menkes, Tim Blanks, Bjork, Kazuyo Sejima.

Ela, que já disse que as regras estão somente dentro de sua mente, oferece uma enorme contribuição à moda com sua estética que desconstrói e provoca, sempre em total desacordo com as tendências predominantes. Rei trabalha para satisfazer suas próprias ideias e é uma das pessoas mais influentes da moda contemporânea, tanto que virou o tema da próxima mega exposição do Metropolitam Museum, em Nova York: Rei Kawakubo/Comme des Garçons: Art of the In-Between, que abre na próxima segunda (01.05). “Sua busca constante por originalidade ou novidade é o que define seu trabalho”, diz Andrew Bolton, curador do Costume Institute do Met. “Em vez de apenas reorganizar o design que já existe, ela insiste em empurra-los para novas formas. Ela é a modernista definitiva e inflexível, mais do que qualquer outro designer que eu conheço”.

Mas Rei não é uma outsider, como muitos a chamam. Ela tem habilmente gerenciado essa linha tênue entre criatividade e comércio e construiu um grande negócio global, ao lado do marido e parceiro Adrian Joffe.

A relação com o corpo

BAILARINOS DA COMPANHIA MERCE CUNNINGHAM USANDO CDG ©REPRODUÇÃO

Suas roupas não tocam ou moldam o corpo e suas coleções não podem ser olhadas ou avaliadas nos termos convencionais da moda. Camisas com mangas longas, recortes no pescoço, saias e vestidos de formas irregulares, casacos com fendas até as mangas, jaquetas de um ombro só, roupas que mostram a costura, preenchimento em locais incomuns, tricôs com furos. Rei experimenta com novas formas e novos corpos, trabalha com visões abstratas e desconstrói mitos, mudando radicalmente as percepções de beleza.

Início

Em uma entrevista para a Vogue americana em 1987, a jornalista Elsa Klensch fala com Rei que havia recentemente começado a desfilar em Paris:

Elsa Klensh: Quando você se interessou por moda?

Rei Kawakubo: Quando tinha 24 anos, trabalha no departamento de propagada de uma empresa têxtil e me chamaram para cuidar do estilo dos anúncios que iam para as revistas e para a TV. Gostei tanto que dois anos depois saí da empresa e comecei a trabalhar como stylist freelance.

Como e quando você começou como estilista?

Em 1969 aluguei uma sala que era parte de um escritório de design gráfico em Tóquio e comecei com dois assistentes.

Como eram as roupas que você fazia?

Peças que eram modernas e novas. Mas elas também eram comerciais. Eu estava num negócio, tinha que pagar minhas contas.

Coleções icônicas

Destroy, 1982

JUMPER E SAIA DA COLEÇÃO DESTROY ©REPRODUÇÃO

Coleção inteira preta, com roupas que foram intencionalmente destruídas. Também havia pouca coisa de estrutura em uma época em que as pessoas estavam obcecadas por modelagens justas e estruturadas. Esse desfile deu à Rei tantos admiradores quanto críticos que saíram sem entender nada.

Body Meets Dress – Dress Meets Body, 1997

DOIS LOOKS DA COLEÇÃO BODY MEETS DRESS ©REPRODUÇÃO

As formas que apareceram na coleção resultaram em comparações com mulheres grávidas e com Vênus de Willendorf e não foi compreendida por muitos críticos, como Amy Spindler, que escrevia para o NYT. “Nem todos gostaram. Em um momento, quando apareceu uma modelo com os ombros estufados e corcunda, um fotógrafo gritou: Quasimodo! no meio do desfile que não tinha música, era puro silêncio”.

Broken Bride, Inverno 2005

©REPRODUÇÃO

Rei foi ovacionada por sete minutos, mas continuou no backstage. “Não foi apenas uma coleção sobre casamento. A quebrar as regras do vestido de casamento, nasceu a informação de que casamento não é necessariamente feliz”, ela disse.

Monster, Inverno 2014

Kawakubo questionou todos os conceitos de beleza. “A expressão Monstros tem um significado mais profundo. é sobre a loucura da humanidade, algo que pode ser lindo ou feio. Em outras palavras, queria questionar os padrões de beleza estabelecidos”.

Invisible Clothes, 2017

A estilista partiu de um vestido de menina, mas feito em proporções ultra exageradas.

Business

OS CORAÇÕES DA LINHA PLAY, DE CAMISETAS, MALHAS E TÊNIS ©REPRODUÇÃO

A Comme des Garçons começou em 1973 e até hoje é uma empresa independente onde Rei Kawakubo é responsável pelas decisões criativas e comerciais. Todo seu trabalho é parte de uma estratégia cuidadosamente pensada em que sucesso econômico é essencial para que ela possa manter sua independência criativa.

Em 2008, quando a moda sofreu um baque com a recessão e muitas empresas tiveram que fazer grandes cortes de custo, Rei lançou a Comme des Garçons Black, uma linha recession-friendly que refazia as peças mais vendidas do acervo da CDG a preços amigáveis. Isso fez com que os fãs da marca continuassem a entrar nas lojas mesmo em tempos de vagas magras.

Discretamente, ela foi construindo um negócio de multi linhas debaixo do guarda-chuva da CdG. Das coleções desfiladas em Paris, as bem sucedidas linhas como a Play e a de perfumes, há uma oferta grande de produtos e preços com o espírito CdG inalterado. Assim, ela mantém sua integridade como criadora enquanto constrói um negócio global bem sucedido.

Certa vez, ela disse à Suzy Menkes: “Podemos dizer que eu ‘desenho’ a empresa, não apenas as roupas. Criação não termina com as roupas. Ideias para fazer novos negócios interessantes, estratégias de varejo revolucionárias, colaborações inusitadas, fomentar talentos internos são todos exemplos de criação na Comme des Garçons”. Kawakubo também apoia com estrutura e consultoria as marcas de Junya Watanabe, Fumito Ganryu, Tao Kurihara e Gosha Rubchinskiy (essa pertence integralmente ao grupo CdG).

Guerilla shops

GUERILLA SHOP DA CDG EM VARSÓVIA ©REPRODUÇÃO

Em 2004, antes do boom das lojas pop-up, a CDG fazia espaços temporários que eles chamavam de guerilla store e que funcionavam como experimentações de outras formas de varejo. Cada loja era mais uma instalação em bairros alternativos em Londres, Berlim, Paris, que ficavam abertas por um ano e sem muito investimento. A estrutura original do local, seja uma parede descascada ou blocos de concreto à vista, era mantida fazendo com que o budget de decoração fosse mais barato do que uma bolsa da marca. Em relação ao nome guerilla, Adrien Joffe explica: “Não tem a ver com política. Ele se refere a um grupo pequeno de pessoas com espíritos semelhantes e em conflito com a maioria”.

Dover Street Market

ESPAÇO DE JWA NA DOVER STREET MARKET EM LONDRES ©REPRODUÇÃO

Multimarcas de Rei Kawakubo que abriu sua primeira loja em 2004 na Dover Street, em Londres (hoje ela está na Haymarket, em Picadilly). O negócio expandiu e também está em Nova York, Cingapura e Tóquio. O foco é a curadoria acertadíssima e original de marcas novas e já bem conhecidas, com o olhar de Kawakubo. De Jacquemus e JWA à Gucci e Dior, passando por uma série de designers japoneses. “Queria criar um espaço onde vários criadores de diversos campos pudessem estar reunidos e encontrar um ao outro numa atmosfera de um lindo caos: a mistura e junção de diferentes almas afins que compartilham uma visão pessoal forte”.

Processo criativo

Em 2008, ela explicou à editora Cathy Horyn como começa seu processo criativo: “meu ponto de partida de todas as coleções é uma palavra, e eu nunca consigo lembrar de onde ela surgiu. Nunca começo a trabalhar com algo histórico, social, cultural ou qualquer outra referência ou memória concreta. Assim que acho essa palavra, eu procuro não desenvolvê-la de uma forma lógica. Em vez disso penso sobre o oposto da palavra, ou algo diferente para ela, ou por trás dela”.

Colaborações

SUPREME + CDG ©REPRODUÇÃO

A Comme des Garçons está sempre criando novas colaborações. A mais recente é uma linha com a Supreme; a mais icônica é uma parceria de 1997 com a companhia de dança de Merce Cunningham, em que os bailarinos usavam figurinos criados pela marca. Nike, Louis Vuitton, H&M, Converse estão entre outras marcas que criaram parcerias com a Comme.

Rei Kawakubo por Rei Kawakubo

CAPA DA REVISTA SYSTEM ©REPRODUÇÃO

“Nunca foi minha intenção começar uma revolução. Vim para Paris com a intenção de mostrar o que eu achava que era forte e belo. Acontece que a minha noção disso era diferente de todo mundo” (em 2005 para a The New Yorker)

“Eu realmente me senti muito sozinha. Nunca achei que meu trabalho tivesse algo a ver com o fato de ser uma mulher. Não sou feminista e nunca me interessei por movimentos como esse. Apenas decidi fazer uma empresa que foi construída em torno da criação. E com a criação como minha espada, eu poderia lutar nas batalhas que quisesse”. (em 2005 na T Magazine)

“As roupas ocidentais justas no corpo são um tédio. Eu crio para mulheres que já estão além disso”.

“Quero fazer roupas que nunca existiram”. (em 2008 para Koda)

“Peguei ideias de mau gosto e as trabalhei do jeito Comme des Garçons. E claro, mau gosto feito pela Comme des Garçons torna-se bom gosto”. (em 2008, no The Fashion Spot)

“As regras estão dentro da minha cabeça” (em 2013 na revista System)

“Uma roupa da Comme des Garçons é um presente para você mesmo e não algo para seduzir o sexo oposto”.

“O tema dessa coleção é Monstro. Mas não é sobre o monstro de filmes ou games, a expressão tem um significado mais profundo. É sobre a loucura da humanidade, o medo que todos nós temos, a ausência de ordinário, expressa por algo extremamente grande, por algo que poderia ser feio ou bonito. Em outras palavras, queria questionar os padrões estabelecidos de beleza”.

Rei pelos outros

BJORK FOTOGRAFADA POR FRANK BAUER VESTINDO CDG ©REPRODUÇÃO

“Rei não está sujeita a regras, não se preocupa com preto ou branco, jovem ou velho, feminino ou masculino. O que é certo e errado? Todas essas questões foram ignoradas por ela durante toda sua vida”, Adrien Joffe, marido e presidente da CdG

“Ela deu um novo senso de beleza à ideia padrão do que era considerado belo no mundo da moda”, Karl Lagerfeld

“Ela não responde à ninguém, não liga se suas roupas são usáveis ou funcionais, muito menos vendáveis”, Cindy Sherman, artista, amiga e colaboradora da marca

“Respeito muito. Ela dá seu talento e visão para o mundo. Conhecer o seu trabalho nos anos 80 me deu a sensação de que tudo era possível. Pessoas como ela acreditam na força de uma voz individual”, Ann Demeulemeester

“Ela faz e as pessoas seguem. Muitos designers nem existiriam hoje se não fosse sua visão pioneira. Hoje ela está no panteão dos deuses. O que dizer? Há estilistas e há Rei Kawakubo”, Edward Enninful

“Quando a conheci, achei Rei confiante, calma, não se deixa levar pela pressão de ter que fazer parte das coisas que estão acontecendo no momento. Ela provou que é possível ser corajosa e manter sua integridade”, Bjork

“O que é mais impressionante sobre Rei é que ela nunca recua. Todo mundo deveria ser assim, mas é duro. Estou nesse negócio há 20 anos e sei como é difícil fazer o que você quer”, Alexander McQueen (E.M.)

Pequenas curiosidades

O ARTISTA JEAN-MICHEL BASQUIAT NO DESFILE DE VERÃO 1987 DA CDG ©REPRODUÇÃO

Quando Andrew Bolton deu a Joffe a ideia de fazer a exposição no Met, ele realmente duvidou que Rei iria concordar. “Ela nunca quis uma retrospectiva sempre me disse: ‘faça isso quando eu não estiver mais aqui. Não posso me dar ao luxo de olhar para trás pois tenho medo de nunca conseguir fazer algo que ainda não existe de novo’.

Rei Kawakubo e Yohji Yamamoto formaram um par dos anos 70 ao início dos 90.

Nos anos 80, Rei colocava artistas nas passarelas da CdG. Jean-Michel Basquiat , Ed Ruscha e John Malkovich estão entre os que já foram modelos por um dia sob o comando da estilista.

Stella Ishii, que trabalhou na Comme durante os anos 80 e 90, viajava para as lojas da marca para explicar aos vendedores o design de Kawakubo. “Isso aqui não é um braço”, ela falava. “São apenas tecidos que ficam aqui pendurados e tudo bem”.

 

Fonte: FFW.