Enquanto a fantasia do corpo idealizado vai ficando para trás, uma imagem democrática surge nas campanhas de lingerie.

Barriga sarada, zero gordurinhas, pernas alongadas, postura impecável… A lista para descrever o suposto “corpo ideal” é longa e impositiva. Por anos, mesmo sendo inalcançável pela maioria da população mundial, foi esse o modelo em que o mercado de lingeries apostou todas as suas fichas, sem dar espaço à diversidade – algo que ficava claro também nas escolhas de quem estrelava os anúncios.

Incomodada com essa ilusão, a etiqueta norte-americana Lane Bryant, que trabalha com roupas de tamanhos maiores, lançou a campanha #IAmNoAngel em 2015. A ação contava com a modelo (e influencer plus size) Ashley Graham, entre outras meninas que não estão nem aí para os padrões. Com a repercussão superpositiva, não demorou para que outras marcas já adeptas do movimento ganhassem mais visibilidade. É o caso da neo-zelandesa Lonely Lingerie. A grife, fundada por Helene Morris e seu marido, Steve Fergunson, em 2009, nasceu com a proposta de fazer uma lingerie de luxo e inclusiva. “Na Lonely, temos 30 tamanhos e queremos deixar isso claro com nossas campanhas. Como uma mulher vai confiar na nossa proposta se ela não se vê representada no que fazemos?”, questiona a criadora da label.

Lena Dunham e Jemima Kirke posam para a Lonely Lingerie. (Lonely Lingerie/Reprodução)

Entre seus ensaios mais memoráveis está o que foi estrelado pela diretora, roteirista e atriz da série Girls, da HBO, Lena Dunham – grande ativista pela autoaceitação e autoestima corporais –, e a atriz Jemima Kirke, também da série, no ano passado. Vale também lembrar a sessão de fotos protagonizada pela modelo Mercy Brewer, que tem 57 anos, para o verão 2017 da marca. “A indústria da moda está completamente obcecada com a juventude. Mas a verdade é que estamos todos envelhecendo a todo momento. Precisamos aceitar isso”, insiste Helene.

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No mesmo mood, a Calvin Klein, autora gigante de icônicas campanhas de lingerie – basta lembrar Kate Moss e Mark Wahlberg nos anos 1990 –, também está repensando a estratégia de marketing para a linha underwear. Este ano, Sofia Coppola, que acabou de vencer a Palma de Ouro de melhor direção em Cannes, foi a escolhida pela marca para retratar diferentes atrizes, como Lauren Hutton (73 anos), Kirsten Dunst, Rashida Jones e Laura Harrier. O resultado passa longe de imagens plásticas e sexualizadas, mostrando, assim, que o feminino tem infinitas possibilidades de beleza a serem celebradas pela moda.

Aos 57 anos, Mercy Brewer é a estrela do verão 2017 da Lonely Lingerie. (Lonely Lingerie/Divulgação)

Quem está começando agora também chega com o discurso afiado, propondo mudanças em todas as etapas do mercado de lingerie. A californiana Laura Schoorl, da Pansy, por exemplo, só usa materiais orgânicos e se compromete em ter uma cadeia de produção 100% ética. “Para mim, é importante criar uma conexão com as meninas que fotografo. Algumas são minhas amigas, outras acabo descobrindo na internet e a gente se conhece melhor durante os ensaios”, diz. Mckenzie Raley, uma modelo plus size norte-americana, usou o know-how de sua carreira na área para, em 2013, criar a Land of Women, uma label minimal de sutiãs e calcinhas desenhados levando em conta as necessidades de suas clientes. “Estamos tentando criar um mundo em que a lingerie ofereça mais opções do que peças criadas só para apertar e levantar os seios”, contou.

Aqui, no Brasil, Fabrizzia De Toni endossa o coro com sua Loleeta. “Desde o começo, a minha missão é empoderar as mulheres. Por isso, se um cara chega falando lixo nos comentários das fotos do Instagram, bloqueio na hora”, explica a designer. “Por mais que muitas marcas tragam um discurso meio forçado, o que está acontecendo é muito importante. No fim das contas, uma conscientização maior acaba acontecendo”, analisa.

A atriz Laura Harrier clicada por Sofia Coppola para a Calvin Klein Underwear. (Calvin Klein/Reprodução)

Fonte: Elle.