Desde a sua campanha presidencial, Donald Trump defende medidas de combate à imigração. No entanto, a grande maioria dos trabalhadores da indústria de vestuário de Los Angeles – o maior centro de confeção nos EUA – é originário da América Central e do Sul.

Nas fábricas, ouve-se tanto – ou mais – espanhol do que inglês, ao ponto de que dominar o idioma de Cervantes é uma valência crucial para quem pretenda ser contratado como responsável de produção.

“Temos 300 trabalhadores aqui e 99% deles são imigrantes”, revela Iris Alonzo sobre uma das fábricas que produzem peças para a sua nova linha de vestuário ao portal de moda Fashionista.

Para a designer, as leis da imigração não são uma realidade com a qual tenha de lidar diretamente, pois a fábrica na qual se aprovisiona exige que todos os trabalhadores tenham a documentação em ordem. Contudo, Iris Alonzo sabe por experiência própria, depois de ter trabalhado mais de uma década na American Apparel, que existe uma vasta comunidade de trabalhadores ilegais em toda a região, apesar das elevadas competências destes.

Engenho e arte

Na era de Dov Charney, a American Apparel era, de certa forma, uma fábrica de sonhos. Os imigrantes, muitos dos quais sem documentos, constituíam a espinha dorsal da produção da marca em Los Angeles.

Porém, naquele que se acredita ser o primeiro prego no caixão da American Apparel, a agência Immigration and Customs Enforcement (ICE) coagiu a empresa a demitir 1.800 trabalhadores – um quarto da sua força de trabalho – em 2009 devido a questões de legalidade.

A designer de vestuário feminino Raquel Allegra, sediada em Los Angeles, depende das valências dos trabalhadores locais. O controlo de qualidade e a capacidade de supervisionar o desenvolvimento de cada padrão tie-dye são de importância fulcral para o sucesso da marca Allegra, algo que Allegra não conseguiria garantir se os seus modelos fossem produzidos noutro destino de aprovisionamento. Outro dos motivos que fazem com que a designer produza localmente é o desejo de alavancar a indústria local. “É uma indústria interdependente, eles dependem de nós e nós dependemos deles”, explica.

A população imigrante é, também, a espinha dorsal da Reformation, uma das marcas de vestuário em crescendo, fundada pela empresária Yael Aflalo, e da Calder Blake, fundada pela designer Amanda Blake. Contudo, os trabalhadores sem documentação continuam a ser contratados pelas fábricas por questões de conveniência.

“Os proprietários de fábricas estão a aproveitar esse facto para lhes pagarem um salário inferior ao mínimo, não recebendo horas extraordinárias”, afirma Iris Alonzo.

Em resposta a esta ameaça e aos desafios em torno da imigração, o Council of Fashion Designers of America (CFDA) publicou em abril um relatório, compilado com a ajuda da FWD.us, organização que defende uma reforma à imigração através do programa “Designing an Immigration System that Works”. O relatório incluiu respostas de 100 membros da comunidade moda dos EUA para ilustrar como os imigrantes são vitais para a saúde da indústria.

A pesquisa mostra que 82% contratam trabalhadores estrangeiros pelas suas habilidades e talentos (não porque sejam mão-de-obra barata) e 42% têm dificuldade em contratar trabalhadores estrangeiros porque não têm informação sobre as leis de imigração.

“Com excelentes candidatos internacionais, as minhas principais preocupações prendem-se com as dificuldades em obter vistos, tempos de espera desnecessariamente longos para que as pessoas obtenham confirmação e renovação de vistos e taxas desnecessárias associadas à obtenção de vistos”, enumerou um designer que preferiu manter o anonimato.

O processo de contratação de um trabalhador estrangeiro que não tenha ainda visto de trabalho é complexo e dispendioso. De acordo com o documento da CFDA, mais de 68% dos entrevistados desembolsaram entre 5.000 e 9.999 dólares (aproximadamente entre 4.402 e 8.804 euros) por trabalhador com as despesas legais associadas ao processo de visto de trabalho.

“Somos um país de imigrantes e a moda é uma indústria baseada em competências. Essas competências facilmente se traduzem, independentemente do idioma de uma pessoa ou do país”, advoga Steven Kolb, CEO do CFDA. O relatório estima que 20% dos trabalhadores na confeção de vestuário nos EUA sejam ilegais.

Fonte: Portugal Têxtil.