DAPPER DAN NA NOVA CAMPANHA DA LINHA DE ALFAIATARIA DA GUCCI ©GLEN LUCHFORD/CORTERSIA GUCCI

O jogo virou! Talvez esta seja a expressão mais adequada para sintetizar a recente parceria da Gucci e a gente explica o por quê. Famoso estilista do Harlem na Nova York da década de 1980, Daniel Day a.k.a. Dapper Dan é o rosto da nova campanha da linha de alfaiataria da grife italiana. E foi lá, no mesmo bairro onde catapultou seu nome na moda há duas décadas, que Glen Luchford registrou suas fotos, contando ainda com direção de arte assinada por Christopher Simmonds.

Dapper ficou conhecido pela Dapper Dan’s Boutique, localizada na 125th street, onde vendia roupas, casacos de pele (carro-chefe da label), artigos de couro e acessórios para carro. Certa vez um homem entrou em sua loja usando uma pochete da Louis Vuitton e não parava de falar sobre a peça, vangloriando-se. Dapper percebeu naquilo algo que realmente o fazia sentir especial. Então, pensou em criar roupas estampadas com o logo da LV e de outras marcas de luxo, como Gucci e Fendi, para as pessoas também sentirem-se especiais, sobretudo a turma do seu bairro, naquele momento, uma das áreas mais pobres de NY, ocupado majoritariamente pela população negra.

Suas roupas tinham estilos e tamanhos que tais marcas não atendiam, além, claro, do preço três, quatro, cinco vezes menor do que as originais. Foi o que precisava para tornar-se febre e fincar seu nome na história da moda como um dos primeiros a intersectar a cena fashion à do hip-hop. Sua boutique funcionava 24h por dia, sete dias por semana e gente de outros estados ia até lá só para comprar suas peças. O lutador Mike Tyson, o rapper LL Cool J e o duo de hip-hop Eric B. e Rakim eram alguns dos clientes de peso que frequentavam o então hot-spot da cidade.

©GLEN LUCHFORD/CORTESIA GUCCI

O negócio funcionou de 1982 a 1992, quando, por motivos óbvios, foi obrigado a fechar as portas pelos infindáveis processos que ganhou das marcas europeias. Corta para o Resort 18 da Gucci, desfilado em Florença, em maio último. Alessandro Michele, diretor criativo da marca, desenhou uma jaqueta com manga bufada inspirada em uma das peças mais icônicas de Dapper, feita em 1989 especialmente para a atleta Diane Dixon, estampada com o damier da LV. O resultado ficou bem parecido, não fosse o padrão com os Gs de Gucci na manga. Mesmo assim, Michele não achou necessário dar crédito.

No dia seguinte ao desfile, a própria Diane postou em seu Instagram uma foto comparando a jaqueta da Gucci com a de Dapper, solicitando que o diretor criativo da grife desse os devidos créditos – e foi um pulo para a internet encorpar a discussão alegando apropriação cultural. “Por mim, podemos tranquilamente conversar sobre apropriação. Eu não o creditei porque estava muito clara a minha referência”, justifica Michele. “Queria que as pessoas reconhecessem o Dapper na passarela. Não foi apropriação – muito pelo contrário, foi uma homenagem”, continua ele, que considera o estilista do Harlem como qualquer outro artista da nossa história, inclusive Botticelli, outra referência do Resort 18 da grife.

Dapper, por sua vez, também não sentiu que sua criação fora apropriada; ele inclusive ficou feliz de vê-la ali. “Alessandro e eu somos parte de dois universos paralelos. A magia que resultou em sua criação foi unir esses dois universos. Isso abriu um diálogo entre nós, até que começamos a conversar de fato”, disse Dapper ao New York Times. “Eu descobri quão similares foram nossas experiências, o jeito que ele cresceu e o jeito que eu cresci, e como eu o influenciei. Não me senti apreensivo com esse episódio. As pessoas se armaram mais do que eu”.

©GLEN LUCHFORD/CORTESIA GUCCI

A parceria entre o estilista e a grife vai além: até o final deste ano, o americano deve (re)inaugurar a segunda geração da Dapper Dan’s Boutique, desta vez com um ateliê sob medida patrocinado pela Gucci. Além disso, Dapper e Michele farão uma coleção cápsula a quatro mãos, que será vendida nas lojas da grife italiana e está prevista para o próximo ano.

“Eu não firmaria nenhuma parceira que não fosse deste nível. Acho que seria um desserviço para a cultura da qual faço parte aceitar qualquer coisa menor do que o Alessandro me ofereceu”, divide Dapper. “Eu acho que é algo que os jovens da minha comunidade podem realmente se orgulhar”. “Estamos reconhecendo o poder deste trabalho”, complementa Michele. “Está na hora de dizer que a moda não é só as vitrines da Quinta Avenida. É bem maior que isso. É sobre cultura, auto-expressão. É sobre expressar um ponto de vista”. Recado dado!

Fonte: FFW.