Uma leva refrescante de cabelos brancos reinventa — com inspirações para todas as idades — a imagem da mulher acima dos 60.

A cantora Joni Mitchell posou aos 71 anos para a Saint Laurent em 2015. Na mesma época, a escritora Joan Didion foi, com 82 anos, musa da Céline. Antes delas até, a atriz Charlotte Rampling foi escolhida, também aos 71, para promover os batons Nars. Vimos ainda Sophia Loren, aos 81, como a garota-propaganda do perfume Dolce Rosa Excelsa, da Dolce & Gabbana, Carmen Dell’Orefice fazer uma campanha aos 83 para a Rolex e a revista norte-americana Vanity Fair eleger Maye Musk, de 69, uma das novas it-girls – o que ela mesma achou “hilário”.

Maye, seis vezes avó, tem mais de 50 anos de carreira como modelo, mas nunca trabalhou tanto quanto agora. “Eu trabalho e aproveito a vida. Nunca me senti frágil”, afirma.

 

Carmen Dell’Orefice, 83 anos, a modelo mais velha em ação.

Por que essas e outras velhas – sim, assim mesmo, sem aspas – estão com tudo e por todos os lugares?

Há vozes assumidamente cínicas sobre esse movimento da moda. A modelo inglesa Sandra Howard, 77 anos, que estrelou uma campanha para a Ralph Lauren aos 47 ­– algo surpreendente para a época em que aconteceu, três décadas atrás – acredita que a indústria usa as 60+ como uma espécie de “efeito choque” porque “nunca houve uma época em que a juventude não tenha sido venerada como a qualidade mais desejável numa mulher”, diz.

“As pessoas estão cansadas de tantos modelos impostos”,diz Lyn Slater, 63, professora universitária em Nova York, autora do blog Accidental Icon e modelo de gigantes como a Uniqlo e a Mango. Em seu perfil no Instagram (@iconaccidental, 220 mil seguidores), ela abusa da hashtag #AgeIsNotAVariable, algo como “idade não conta”.

“Meus seguidores, a maioria entre 18 e 35 anos, me escrevem, agradecendo por eu mostrar um jeito muito mais interessante de olhar para a idade que desafia as convenções sociais”, diz.

Lyn observa que essa geração não se relaciona com as pessoas mais velhas do jeito que os mais velhos fazem – eles são mais abertos e livres. Os comentários nas fotos trazem palavras e expressões como “linda”, “incrível”, “maravilhosa”, “amo tudo da cabeça aos pés”. Nada do que ela (que tem entre seus trunfos de imagem o corte de cabelo) posta é photoshopado.

“Autenticidade é o que torna as pessoas atraentes”, acredita.

Lyn decidiu criar seu blog há três anos para mergulhar no seu amor pelo jogo de aparências. Nos posts, existem substância filosófica, confissões e perguntas. Mas o tema nunca passa pela questão dos anos vividos na Terra. Como ela insiste, a idade é “uma falsa categoria”. “Nunca penso em ser velha, mas sobre envelhecer. Esse é um processo contínuo, que começa quando nascemos. E os vinhos e as antiguidades estão aí para provar que as coisas melhoram com o passar do tempo.”

O que significa, então, ser velha?

Uma das modelos icônicas dos anos 1960, 70 e de 2017, a norte-americana Jan de Villeneuve, 73, responde com uma anedota. Um amigo, ela diz, se aproximou no trem de uma senhora que ele achou chiquérrima. Sem graça, porque diz o bom-tom que não se deve fazer isso, ele perguntou se poderia saber a idade dela. “Não me importo de ter 99 anos. O bom é ter uma filha de 73”, respondeu ela. Moral da história para Jan: “Sim, os ossos estão mais fracos, os cabelos mais finos e eu não gosto das rugas, mas essa é a minha idade. Eu não quero ter de novo 27 e, acima de tudo, eu não me sinto diferente por dentro”, resume.

“Envelhecer é inevitável e precisamos pensar nisso e não nos obcecar com a juventude. Velho é querer parecer novo.” Jan, uma das modelos do desfile de inverno 2018 da Simone Rocha, diz que seu estilo é clássico com um twist. Muito twist. “Meu armário se parece com as coleções da Gucci”, compara. Coleções que nem de perto passam pelo visual tradicional de vovó a que estamos acostumadas – e um figurino fora do padrão sem dúvida ajuda na percepção do outro.

O melhor exemplo de que o hábito faz a fashionista é a austríaca Ernestine Stollberg, 95 anos, uma Iris Apfel tardia. Ernie, como é conhecida, costumava passar de jeans boca larga, suéter e trench coat Burberry na frente da Park, uma multimarcas da dupla Markus Strasser e Helmut Ruthner em Viena, e chamou a atenção de Markus, que é stylist. Há um ano, ela começou a modelar para o Instagram da loja.

Nas fotos, aparece de Jacquemus, Raf Simons, Ann Demeulemeester, Dries Van Noten. Ela mesma monta seus looks, clica com o smartphone e posta. “Ela se diverte com peças ultracontemporâneas e age naturalmente. É isso o que as pessoas, não importa de que geração, buscam hoje”, analisa Markus.

É possível dizer que no centro dessa pequena revolução está assumir o cabelo branco, um dos sinais de velhice mais combatidos. “Os meus são a prova de que na vida é preciso se deixar levar e buscar novos caminhos para se sentir bela, inteligente e viva”, diz a jornalista parisiense de moda Sophie Fontanel, menor de 60.

Desde que largou a tinta escura, Sophie viu sua conta no Instagram (@sophiefontanel) explodir em seguidores em velocidade exponencial, mesmo que em números absolutos, 114 mil, ele não impressione no universo das blogueiras nascidas nos anos 1990. É como se ela tivesse se encontrado com ela mesma, sem disfarces, e os posts mostram isso. Sophie, como Lyn, Jan e Maye, arruma-se só para si – até para manter um jogo de sedução com os outros. “É preciso se reinventar o tempo todo. O que mudou é que tenho cada vez mais prazer em me fazer bonita. A idade nos traz doçura e naturalidade. Quem resiste a isso?”, pergunta.

Só nos resta, então, observar que há uma luz branca no fim do túnel e que os conselhos de Anna, Sophie, Lyn, Maye, Jan, Ernestine são como os sábios conselhos de mãe para filha, que valem para qualquer geração.

Fonte: Elle Brasil.