rsola de Castro é fundadora do Fashion Revolution e uma dentre as várias vozes femininas pioneiras quando o assunto é moda e sustentabilidade // Reprodução

Como todas as outras indústrias e áreas de negócios, a moda é bastante desigual quando falamos de raça e gênero. Apesar de ser composta majoritariamente por mulheres, são homens que ocupam cargos de tomadas de decisão e destaque seja na área de negócios, seja na área criativa, seja no chão de fábrica. Agora, eles estão começando a ocupar também os cargos de chefes de redação nas revistas de moda, o único espaço de liderança que era tradicionalmente feminino.

Não é surpreendente que esse padrão se repita dentro de discursos que são entendidos (ou pregados) como disruptivos, inovadores, de mudança ou transformação. Mas, como bem disse Luíse Bello em seu texto para o Huffpost, “não há modernidade liderada apenas por homens”. Em seu texto, Luíse fala especificamente sobre tecnologia e sobre o Vale do Silício, mas poderia muito bem estar falando de qualquer outra coisa como, por exemplo, o movimento de moda sustentável, que apesar de estar sendo abordado e pregado por mulheres há mais de uma década, são homens (brancos) que estão estampando as capas dos jornais como os líderes responsáveis por nos levar rumo ao novo.

“NÃO HÁ ILUSÃO MAIOR QUE A DO REFORMISMO UTÓPICO QUE ACREDITA QUE VOCÊ PODE FUNDAMENTALMENTE MUDAR UM SISTEMA SEM TOCAR EM SUAS RELAÇÕES DE PODER”

Alguns podem até pensar que não há mulheres qualificadas o suficiente para serem porta-vozes dessa mudança, mas isso está longe de ser realidade. Na moda e no movimento por uma moda mais ética e sustentável, não existe uma falta de liderança feminina, pelo contrário. Orsola de Castro, Livia Firth, Stella McCartney, Lucy Siegle, Eva Kruse, Gabriela Mazepa, Lilyan Berlim, Fernanda Simon são só alguns nomes que vêm à mente sem precisarmos pesquisar ou pensar muito quando olhamos para as pessoas por trás de empresas, marcas e movimentos importantes. Há muitas mulheres nos levando rumo ao novo, porém há todo um aparato social que as impede de chegar em determinados lugares, ocupar determinadas posições e serem protagonistas dessas narrativas. Quando falamos de mulheres negras, o abismo é ainda maior

Tamsin Lejeune, criadora do Ethical Fashion Forum/My Source e responsável por levantar a bandeira da moda sustentável há quase dez anos, já destacou a importância das mulheres na liderança se quisermos realmente transformar a indústria da moda. Porém, a liderança precisa também ser reconhecida. Essas mulheres que são pioneiras e estão liderando a mudança necessariamente são as que precisam sentar nas rodas de conversa e mesas de debate em eventos que carregam esse tema, são elas também que devem ter o trabalho reconhecido e incentivado pela mídia, pelos investidores e por outras empresas parceiras. São elas que, após anos de trabalho, têm muito para falar e fazer quando esse assunto se torna, finalmente, uma pauta reconhecida.

Prestemos atenção e questionemos as relações sociais estabelecidas dentro e ao redor da moda (e das tendências de transformação), pois não há novo se o novo faz exatamente igual ao velho, ou seja, tira proveito das relações de poder estabelecidas pela sociedade e desvia o olhar dessas pautas ‘inconvenientes’, sem praticar o que, de fato, seria disruptivo e inovador. Se queremos uma moda mais sustentável, com toda a complexidade que essa palavra carrega, não vamos chegar lá sem olhar para as questões de gênero, raça e classe que pesam absurdamente nessa indústria. Como Tansy Hoskins, sempre sábia, nos lembra: “Não há ilusão maior que a do reformismo utópico que acredita que você pode fundamentalmente mudar um sistema sem tocar em suas relações de poder.”

Fonte: Modefica.