Os dois Felipes, Rigolizzo e Oliveira, cofundadores da Ginga.FC, em missão no norte do país.

“Ao começar a empreender, você tem que cobrar o escanteio, mas também correr para a área cabecear.” É com este paralelo entre o futebol que o empresário paulistano Felipe Oliveira, 29, conta como, dia após dia, tem unido algumas de suas paixões (jogar bola, fotografar, conhecer pessoas, culturas diferentes e viajar) na Ginga.FC, que criou ao lado de seu xará, Felipe Rigolizzo, 31. Publicitário, ele viu a veia empreendedora pulsar pela primeira vez quando tocou um projeto de inclusão social de pessoas com deficiência. Em outro momento, quando ainda trabalhava em agência de publicidade, desenvolveu alguns projetos em zonas periféricas e, atento a cada gesto das pessoas com as quais interagia, percebeu o quanto o futebol era presente, muitas vezes como a única forma de lazer.

Assim como um time que despretensiosamente vai se formando, o projeto Ginga.FC foi acontecendo sem planejar muito. “Sempre admirei o impacto que o futebol tem no Brasil. Inicialmente, tinha a vaga ideia fazer uma marca ligada à moda que mostrasse o lifestyle desse futebol do cotidiano. Tinha uma vontade muito embrionária de fazer uma marca de camisetas que mostrasse isso. Saí da agência, comecei a empreender e isso me deixou com tempo livre pra pensar em outras coisas”, conta.

Engana-se quem pensa que essa liberdade fez o publicitário parar de trabalhar. Em 2015, Felipe Oliveira recebeu o convite da ONG Saúde e Alegria para fazer um trabalho voluntário no Pará. Ele já tinha enviado um e-mail “na cara dura” para a entidade, se apresentando e manifestando interesse pelo voluntariado, até que a organização topou custear a viagem em troca do curso de Design Thinking que ele daria por lá.

Inicialmente, ele ficaria só alguns dias, mas, entre travessias de barco, boas conversas, curso de bioconstrução que acabou fazendo em terras paraenses, comida local e, claro, muitas partidas de futebol, foram quase dois meses de uma aventura que acabou sendo o ponto de partida do negócio. “Eu tinha o tempo, tinha os custos arcados. Sempre fui um pouco curioso no sentido de ir para lugares que não são tão convencionais. A ideia da Ginga ainda estava só na cabeça, mas essas experiências no Pará a fortificaram, porque vi que independentemente do tamanho das comunidades ribeirinhas, em todas elas tinha um campinho, uma trave, uma bola, a criançada se misturando com os adultos. Eu via o futebol acontecendo muito fortemente ali.”

ARMANDO O MEIO-DE-CAMPO

As fotos que Felipe Oliveira tirou das comunidades da região do rio Tapajós o fizeram voltar para São Paulo “inquieto”, como ele próprio diz. É que agora ele tinha um tema: mostrar a relação dos ribeirinhos da Amazônia paraense com o esporte que é paixão nacional. Isso se materializou na confecção de três modelos de camiseta, que foram desenvolvidas de forma sustentável, com fibras geradas da reciclagem de garrafas PET. “Fizemos questão de que fosse uma produção artesanal, bem humana e empática”, afirma.

Um dos modelos da Ginga.FC, a camiseta Meu Garoto retrata um ribeirinho de Arimum, no rio Arapiuns, e custa 70 reais.

“Comecei a vender, mas pensei que poderia fazer daquilo algo muito maior, para entrar mais fortemente no contexto social. Aí que veio a questão: como posso gerar um legado? Então, escolhi um lugar onde eu pudesse deixar essa contribuição e o que me veio à cabeça foi a Vila de Suruacá, que, mesmo sendo pequena, teve toda estrutura para me receber e onde o futebol tem um caráter de integração muito forte”. E haja disposição para se reunir e bater uma bola! Ele conta que aos finais de semana, os moradores viajam cinco, seis horas de barco só para jogar em uma comunidade vizinha. “Depois do jogo tem a festa, onde eles fazem pirarucu, que é a peixada na beira do rio.”

Os agora sócios Felipe Oliveira e Felipe Rigolizzo investiram 30 mil reais para o que o primeiro chama de “projeto piloto” da Ginga.FC, que alinha as vendas das camisetas com um retorno – principalmente didático e cultural — a uma comunidade visitada. Uma palavra que o publicitário reforçou muito ao longo de nossa conversa foi “cocriação”, no sentido de troca, de criar junto aos amigos que fez na Vila de Suruacá experiências que pudessem melhorar a qualidade de vida da população. Dos 30 mil reais iniciais, o retorno financeiro com as vendas das camisetas foi de aproximadamente o mesmo valor, ou seja, em termos de grana, ficou tudo “zero a zero”. Pelo menos por enquanto, já que, das 240 peças produzidas, ainda há algumas (cerca de vinte) à venda no e-commerce.

A precificação dos produtos inclui o custo da produção ecológica e da embalagem: cada camiseta vem com uma tag específica contando a história da estampa. Por isso – e para que seja possível gerar benfeitorias para a comunidade parceira —, as peças da Ginga.FC, como a Meu Garoto e a Tapajós são vendidas pelo dobro do preço de custo.

TIME FORMADO, HORA DE ENTRAR EM CAMPO

Uma vez escolhida a Vila de Suruacá para ambientar a primeira ação da Ginga.FC, o empreendedor por trás da marca tinha que revisitar o local, mas não esperava por um detalhe: já que estamos falando em futebol, Felipe precisava de um time, que se formou da maneira mais natural possível. “Inicialmente, eu iria sozinho, ou só com o Felipe (Rigolizzo), esse meu parceiro que está me ajudando desde o início, mas aí foram rolando conexões, de gente que foi manifestando interesse de ajudar de alguma maneira”, conta. No fim, isso acabou se consolidando como uma experiência de turismo comunitário. Eles viajaram em 32 pessoas, entre artistas de circo, professor de yoga, advogado, dentista, arquiteto, fotógrafo, jornalista etc. O grupo, além de muito eclético, tinha gente de vários estados. “Eu nunca tinha divulgado a ideia da viagem. As pessoas certas foram chegando e algumas delas eu nem conhecia”, diz.

Nesse bate-bola, no passe de um para o outro, o time da Ginga conseguiu marcar golaços para a comunidade ribeirinha de Suruacá: plantou 150 mudas de cupuaçu no local; distribuiu 150 kits de higiene bucal em parceria com a Colgate; promoveu espetáculos circenses para os moradores; conseguiu um depoimento do ex-jogador Cafu para a comunidade; reformou o campinho da vila; refez a rede do gol de forma ecológica, com fios de garrafas PET recicladas (e ainda doou uma máquina para que eles pudessem aplicar a técnica fazendo coisas para uso próprio, como redes de pesca, por exemplo) e viabilizou a doação de materiais esportivos. Na página da Ginga.FC no Facebook há um álbum com 245 fotos da ação.


Acima, a equipe de 32 que a GingaFC levou à Vila de Suruacá junto com os ribeirinhos (foto: Bruna Fioretti e Eduardo Figueiredo).

Um dos motivos pelos quais Felipe escolheu a Vila de Suruacá para revisitar e tentar transformar positivamente é que lá não tem essa de um time só de menino e outro só de menina. Idosos, adolescentes, crianças, adultos, sejam homens ou mulheres, todos se misturam quando a bola está em campo. Até mesmo o que poderia ser uma limitação para outras culturas, sequer é notado na comunidade. O empresário citou como exemplo o Márcio, morador que tem síndrome de down. “A gente o via brincando de uma maneira tão natural com as outras crianças, que acho que elas nem sabiam da condição dele.”

A integração não é só entre os “nascidos e criados” na vila, mas também entre os moradores e a própria equipe da Ginga.FC. “O vínculo que a gente criou ali é muito difícil de se perder. Foi uma troca tão intensa, que tem famílias de lá que me mandam mensagens desejando boa tarde, boa noite, dizendo que estão com saudade”, conta o sócio, que reforça o objetivo de empoderar os moradores para que eles possam ampliar o que aprendeu com o time da Ginga para outras comunidades locais.

PRORROGAÇÃO: COMO MARCAR MAIS GOLS

A experiência na Vila originou o documentário #FutebolNoTapajós (que está prestes a ser lançado e já tem um teaser) e uma exposição, que abrirá em breve no Largo da Batata, em Pinheiros, São Paulo. E já tem mais uma viagem marcada, com outro destino, para a Ginga.FC entrar em campo: em breve os sócios irão a uma aldeia indígena no Xingu repetir o modelo de intervenção futebolística-artístico-social. O foco, agora, é, além de fazer uma imersão no local para fotografar o futebol acontecendo por ali, produzir não só camisetas baseadas nessa experiência, como também outros materiais esportivos. E fazer o máximo para viabilizar melhorias para as localidades escolhidas. “A ideia é conseguir formalizar a Ginga como um projeto de caráter social, que eu consiga inscrever em editais pra capitanear patrocínios e continuar gerando transformações na vida das pessoas”, afirma Felipe Oliveira.

A camiseta modelo Tapajós, da GingaFC, custa 70 reais (foto: Bruna Fioretti e Eduardo Figueiredo).

Tem algumas coisas que o empreendedor faria diferente do primeiro projeto e que vai poder mudar agora, no decorrer da próxima aventura. A modelagem da leva inicial de camisetas, por exemplo, ficou um pouco menor do que o planejado, mas isso serviu pra ele “pegar o jeito” da coisa. Outro percalço foi a logística da viagem para a região do Tapajós, já que Felipe precisou levar trinta e oito malas consigo e tentou, sem sucesso, parcerias com companhias aéreas. A bagagem teve que ser dividida entre os amigos que o acompanharam.

Sobre abrir uma eventual loja física para a marca, ainda não tem nada concreto, mas o cofundador da Ginga.FC não descarta a possibilidade. Parcerias com outros lojistas também não estão descartadas, já que, para ele, só se ganha uma partida se conectando às pessoas. “Enxergo o mundo formado por conexões, desde como você se conecta com a natureza, com seus valores, até a forma como se conecta com os outros. Penso muito na sinergia disso tudo e procuro criar essas conexões com o objetivo comum de gerar coisas boas”. Seguindo a máxima de que o futebol é uma caixinha de surpresas, Felipe se deixa surpreender. “As coisas têm fluído e, conforme vão rolando, vão fazendo mais sentido. Temos nos dado tempo para curtir a jornada.”

 

  • Projeto: Ginga.FC
  • O que faz: Camisetas e materiais esportivos retratando o futebol em comunidades que são beneficiadas com a receita das vendas
  • Sócio(s): Felipe Oliveira a Felipe Rigolizzo
  • Funcionários: 2 (os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: R$ 30.000
  • Faturamento: R$ 30.000
  • Contato: contato@gingafc.com.br

Fonte: Projeto Draft.