No Uzbequistão, de acordo com um novo relatório, crianças e adultos estão a ser forçados a trabalhar nos campos de algodão de pelo menos um projeto financiado pelo Banco Mundial. Há vários anos que o cultivo e a colheita de algodão do país têm sido manchadas pela generalização da mão de obra forçada.

Desde 2015, o governo uzbeque tem forçado estudantes e professores a plantar algodão e a colhê-lo, segundo um relatório recentemente divulgado pela Human Rights Watch, em parceria com o Uzbek-German Forum for Human Rights.

«A qualidade da educação é prejudicada mesmo quando as crianças não são enviadas para os campos porque os seus professores também são forçados a trabalhar», afirmou Jessica Evans, investigadora da Human Rights Watch, à Reuters. «Metade do tempo, as crianças ficam sozinhas porque não há professores nas salas», acrescentou.

Aqueles que se recusam a trabalhar nos campos de algodão arriscam-se a ser demitidos, expulsos das escolas ou a ver os seus apoios da segurança social reduzidos, refere o relatório.

Banco Mundial implicado

Num projeto de irrigação financiado pelo Banco Mundial, que abrange uma região onde o governo concordou em proibir o trabalho forçado e infantil, os investigadores encontraram jovens com 13 anos a trabalhar em campos, assim como adultos que haviam sido forçados a trabalhar na produção e colheita. O Banco Mundial providenciou quase 700 milhões de dólares (aproximadamente 613 milhões de euros) em empréstimos ao governo uzbeque para projetos agrícolas entre 2015 e 2016.

«O Banco Mundial não tolera qualquer forma de trabalho forçado e tem em consideração os relatos de incidentes no sector no Uzbequistão», declarou um porta-voz do Banco Mundial em resposta ao relatório. «Continuamos a expressar as nossas fortes preocupações sobre questões laborais ao governo do Usbequistão», sublinhou.

Até à data, as autoridades uzbeques não se mostraram disponíveis para comentar, adianta a Reuters.

Boicote das marcas

Os grupos de defesa dos direitos humanos atestam que o Uzbequistão está a esconder um sistema de trabalho forçado orquestrado pelo Estado com vista a manter a sua posição como o 5.º maior exportador de algodão do mundo.

Estes dados desencadearam um boicote global de quase 300 empresas, incluindo gigantes da moda como a Zara e a Yves Saint Laurent, que se comprometeram a cessar o aprovisionamento de algodão uzbeque até que o governo acabe com o trabalho forçado e infantil no país.

No início do ano, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) descobriu que, embora o Uzbequistão esteja a fazer progressos na erradicação do trabalho infantil na indústria do algodão, o trabalho forçado ainda é uma realidade. Contudo, a monotorização da OIT não encontrou nenhum caso de trabalho forçado ou infantil em projetos apoiados pelo Banco Mundial.

Fonte: Portugal Têxtil.